O silêncio do abuso em família

 O silêncio do abuso em família

Nesta edição, trago uma entrevista exclusiva para o Papo De Mulher, a coluna que tem feito a diferença em muitas vidas. Tive o prazer de entrevistar uma mulher maravilhosa, sensível, superada, corajosa, destemida e que aqui relatou uma das experiências mais dolorosas da sua vida. Muitas pessoas se calam, sofrem e até mesmo se suicidam pois não suportam a dor de um abuso. Mas você não precisa sofrer sozinho(a). Um dos principais motivos desse relato é levar a história para aqueles que sofrem calados.
Fernanda Johnson nasceu no interior de São Paulo. Ela mora em Londres há 23 anos é casada, tem 46 anos de vida, aprendizados e crescimento. Tem uma filha, doce e abençoada, é  terapeuta holística, e  gosta muito do que faz. Ela se achou como pessoa, se sente realizada e honrada, afinal participar da jornada das pessoas que atende é com certeza uma realização maravilhosa.

Fernanda conta para nós um pouco da sua profissão por favor.

Eu trabalho com cura energética e sou facilitadora de Constelação Familiar, sou professora na escola de Healing em Londres.
Eu dei algumas voltas antes de chegar até aqui, antes de eu me dedicar totalmente ao que eu faço hoje, eu trabalhava com crianças, pois me formei como professora aqui também. Eu trabalhava criando e coordenando centros infantis, eram ambientes saudáveis e estimulantes para as crianças e suas famílias. Embora eu gostasse do que eu fazia, eu sentia que faltava algo, eu sempre dizia que precisava ir além e  fazer algo que ajudasse as pessoas. Estudei interpretação e tradução, onde fui intérprete no NHS por um bom tempo, trabalhava com assistentes sociais e a cada dia aumentava a vontade de fazer algo que ajudasse as pessoas, algo dentro de mim buscava o que eu tinha que fazer. Eu rezava, pedia clareza, pedia luz pra eu conseguisse chegar no meu propósito de vida.

 

Conte por favor como tudo aconteceu.

Eu cresci numa família com muitas regras, violência, segredos, lealdade e silêncio. Eu tinha 7 quase 8 anos quando acordei com meu irmão me tocando, com a mão dentro da minha calcinha, eu estava acordando de um sono da tarde, ele era quase um ano mais velho que eu, um abuso incestuoso, um fenômeno visto como uma manifestação da disfunção familiar que causa danos imensuráveis. Isso não era frequente mas acontecia de tempo em tempo que se estendeu até os meus 11 anos. Eu nunca contei para ninguém e falar a verdade na minha família era motivo para violência. Meu pai não pensava duas vezes em tirar a cinta e partir para cima, minha mãe congelava e assistia. Isso tudo gerou muito trauma. Eu fui extremamente abençoada com meus avós e tios. O verdadeiro amor eu recebi com muita gratidão da minha avó e da minha tia amada. Eu também fui muito abençoada com a minha conexão espiritual, minha fé, intuição e por Deus estar sempre presente na minha vida. Depois que eu tornei adolescente eu queria apagar tudo aquilo da minha memória, não era fácil conviver comigo mesma. Em 1997 eu vim estudar em Londres, antes de eu vir eu estava num estágio bem difícil onde eu deseja morrer todos os dias. Eu sou grata aos meus pais pela minha vida e pela oportunidade de vir pra Londres e aqui ter renascido.

 

E como foi esse renascimento?

Em 1998 eu comecei a procurar ajuda. Deus, o Universo, o mundo espiritual em harmonia comigo colocaram as pessoas certas no meu caminho e assim eu comecei a curar os traumas. Eu tinha vergonha, era ruim e doloroso falar sobre a violência e o abuso.
Eu não sabia o que fazer com aquilo tudo, eu era irritada e atormentada. Eu não sabia o que era amor próprio. Eu não conseguia me abrir com as pessoas, não  sabia fazer amizades profundas, eu tinha vergonha de mim, eu me sentia uma maçã estragada e a vergonha corrói. Eu guardei tudo por muito tempo, mas isso só sumiu da minha mente depois que eu fiz disso um foco, busquei ajuda, suporte, olhando e sentindo todos os desconforto possíveis comigo mesma. Foi difícil, mas com a cura isso tudo se tornou para mim amor próprio e libertador, amor por quem eu sou e tudo que vem comigo.

Durante esse processo de busca, houve um tempo de profundo autoconhecimento e de cura pessoal muito essencial, necessário e importante, pela qual eu sou muito grata, porque que me permitiram ser quem eu sou hoje e fazer o trabalho que eu faço.

Eu sempre fui muito intuitiva e aprendi a ouvir o meu coração, para entender o que faz sentido para mim ou não,  eu estudei no curso de healing por 2 anos, depois fiz mais 2 anos de treinamento em Constelação Familiar e estudo regularmente sobre como curar traumas, experiências vividas e ser feliz.
Quando eu decidi ser terapeuta em tempo integral, foi como se eu sempre tivesse trabalhado naquilo, fluiu muito rápido.

 

Como você vê a influência da família nesse período de abuso?
Em muitas famílias a violência e o abuso sexual continuam sendo reproduzidos dentro do sistema familiar e são protegidos pela lei do silêncio. Esse segredo familiar é passado de geração  em geração  sem que ninguém seja denunciado. Apesar das famílias não conversarem sobre isso, a realidade é que todos os membros da mesma sabem que algo acontece, e continuam ignorando. Um pacto inconsciente é feito e todos se calam. Dentro das famílias incestuosas a lei de preservação do segredo familiar prevalece sobre a lei moral e social. Acima de tudo, o mais doloroso é que isso prevalence sobre o amor e a compaixão para com o próximo. A vítima que decide denunciar o agressor é geralmente excluído por mostrar a verdade, assim quebrando a lealdade de sigilo e causando desarmonia que existe dentro daquele sistema familiar.
Da última vez que estive no Brasil eu contei para minha mãe o que aconteceu comigo, no dia ela chorou, pediu desculpas, questionou todos os detalhes e disse que entraria em contato com a psicóloga do meu irmão para saber como melhor abordar isso. Depois que eu voltei pra Londres ela nunca mais entrou em contato comigo. A maior dificuldade que uma vítima de abuso apresenta sendo em família ou fora de casa, e a aceitação da família, é o lugar solitário onde esta vítima é posta. É tão desconfortável e triste que as pessoas preferem não saber, principalmente num sistema familiar onde as pessoas preferem não ver, porque custa muito ter que ver a verdade. Recentemente em uma conversa num grupo de família eu postei uma matéria sobre abuso sexual intrafamiliar e pedi a visão de cada um em relação ao tema. Somente duas primas e um primo fizeram comentários, os outros usaram a lei do silêncio novamente. Eu vi a indiferença na família, que ainda não reconhece a minha verdade. É evidente que o desconforto sobre o abuso é maior do que a compaixão para com a vítima. É realmente constrangedor e preocupante que vítimas de abuso sexual sejam deixadas novamente sozinhas, isoladas no seu vazio. Um ato quase desumano mas de pura realidade é muito comum.

 

Porque você resolveu relatar a sua história e dividir sua dor?

Eu decidi escrever sobre a minha história por que eu tenho paz, por que eu escolhi não  usar a lei do silêncio, para que as pessoas que ainda se sentem sozinhas, que ainda não se curaram consigam ver que existe uma possibilidade e uma outra maneira de se viver. E também porque eu tenho a certeza de que não importa o quanto sua vida pareça turbulenta, confusa e pesada, se o desejo do seu coração é de ser feliz, você não precisa carregar e resolver tudo sozinha, você precisa de ajuda, de suporte que te leve para um lugar onde vai se conhecer e saber quem realmente é, vai perceber que dentro de si existe uma alma iluminada que pode ser feliz e leve. Primeiro eu fui trabalhar em mim, com a ajuda de muitos terapeutas e com a benção da luz Divina me guiando, eu vi a minha dificuldade em falar sobre o que tinha acontecido durante os meus estudos, treinamentos.Eu tive a experiência de vivenciar a dificuldade das outras pessoas de falarem sobre abuso e violência. Da vergonhaque elas carregam, vergonha que pesa e paralisa. São inúmeros os impactos e danos causados por uma experiência dessa. Quando você tem que apagar ou amortecer uma parte de si próprio é muito difícil, não consegue ser uma pessoa inteira, é como se sempre faltasse uma parte. O que mais me chocou foi ver a reação das famílias, a forma como vítimas de abuso e violência são tratadas, excluídas e isoladas. Eu vi isso repetidamente é mais fácilabafar, ignorar do que ver a situação, mas o silêncio não cura.

O que me motivou a expor minha história foi o respeito que eu tenho pelo outro, meu desejo para que as pessoas saibam que elas não estão sozinhas, para que elas sejam curadas, para que se sintam inteiras, completas e sejam felizes. Eu acredito que a alegria, a felicidade é um direito que todos nós temos, e é minha escolha fazer isso acontecer, eu fiz e você pode fazer também. Permita-se curar e ser feliz, é seu direito e você merece!

 

Por favor Fernanda, deixe um recado para o leitor:

Um dos melhores dias da minha vida foi quando eu percebi que nada daquilo que eu sentia era meu para carregar. Que alívio devolver o que não te pertence. As consequências de um abuso pertencem aquele que abusou, aquele que fechou os olhos para não ver e não quem foi abusado. Isso precisa mudar, a solidariedade e compaixão se estende a todos. Para você que está lendo a minha história e se identifica com algo, o meu desejo é que você tenha luz, suporte e também aprenda a se amar de verdade. Onde quer que você esteja você tem a minha admiração por ter seguido em frente mesmo com todo esse peso, o meu respeito, o meu suporte e o meu carinho e saiba que, acima de tudo você não está sozinha ou sozinho.

Por: Adriana Bell