O GRITO ARTÍSTICO: A HISTÓRIA SE REPETE!

 O GRITO ARTÍSTICO: A HISTÓRIA SE REPETE!

Bendita arte, que por meio de todos os seus segmentos, nos conta histórias que revelam a História! E Liverpool Street, uma das estações mais charmosas de Londres, tem algumas para contar. E uma delas, bela e, ao mesmo tempo, trágica, está representada por uma estátua numa de suas entradas.  É incrível como o bronze foi capaz de mostrar de forma tão clara a expressão de cinco crianças: assustadas, encantadas, pensativas, confusas, inseguras. Outro contraste entre a frieza do bronze e os sentimentos tão notados na face de cada criança do monumento. E foi exatamente assim que elas chegaram ali, onde a escultura denominada “A CHEGADA” foi levantada. Impossível não se inquietar com a forma que menina mais nova abraça seu ursinho de pelúcia. Parece um refúgio para ela. E o violino no chão? De cortar o coração.
“The Arrival”, do artista Frank Meisler, é um memorial às 10.000 crianças judias que chegaram à Grã-Bretanha, buscando refúgio da tirania nazista em toda a Europa. Pasmem: ele foi uma dessas crianças resgatadas e salvas por esse transporte. Ele deixou sua cidade natal Danzig aos 10 anos de idade em 1939. Seus pais logo depois morreram em Auschwitz. Desde 1960 vive e trabalha em Israel. Isso mesmo, a arte foi a melhor forma que ele encontrou, depois de tamanho sofrimento e superação, de contar a sua história.
Ali está o retrato do programa que foi chamado de Kindertransport, alemão para “transporte de crianças”. Foi apoiado e incentivado pelo governo britânico, juntamente com o esforço de muitos ​filantropos, os quais trabalharam em equipe para garantir a segurança do maior número possível de crianças.
Ao mesmo tempo em que eu contemplava a beleza daquela escultura, me vinha à memória o que ocorreu ao longo de nove meses entre 1938 e 1939: o “Kindertransport” foi, de forma brilhante, uma resposta quase imediata à devastação dos eventos da Kristallnacht em 5 de novembro de 1938 em toda a Alemanha, uma noite em que judeus alemães foram espancados, torturados, assassinados e enviados aleatoriamente para campos de concentração. Para minha surpresa, uma criança subiu no monumento e começou a interagir com o menino da escultura, como se visse vida nele, como se quisesse levar algum consolo! Só consegui pensar que hoje a história se repete. E também hoje a arte encontra uma linda expressão: artistas visuais, músicos e escritores se unem em prol da paz: PROJETO WWW.ARTSHOUT.ART, (@artshout_art) na exposição O GRITO ARTÍSTICO- ARTE PELA PAZ!
O projeto foi criado por Sueli Lopes, escritora, professora e curadora literária; e Márcia Regina Bull, advogada, professora, escritora e curadora de artes visuais. As autoras do projeto acreditam no poder da arte com propósito, na sua capacidade de interagir com o contexto histórico, político e social, como sempre aconteceu no decorrer dos séculos; especialmente em períodos de guerras, pandemias e pestes.
A primeira exposição aconteceu no Circolo Italiano San Paolo, em São Paolo, de 21 de março a 05 de abril e a próxima será em Londres, como o mesmo tema e propósito. E vale ressaltar ainda o poder diplomático da arte, no qual outra história se repete: parte das obras serão doadas para que sejam vendidas ou leiloadas com o intuito de ajudar os refugiados da Ucrânia. Para quem não sabe, em 1945, em pleno período de guerra em que a Inglaterra era bombardeada pela Alemanha, artistas brasileiros doaram mais de sessenta obras de arte, que vieram de navio, para ajudar a Força Aérea Britânica. Sim, A ARTE TEM PODER DIPLOMÁTICO!

 

Tomara que todas as crianças da Ucrânia também tenham uma CHEGADA segura em algum lugar! Tomara que elas sejam todas resgatadas, cuidadas, amadas; afinal, “Aquele que resgata uma única alma é creditado como se tivessem salvado o mundo inteiro” (Talmude)

 

por: Sueli Lopes

Professora de língua portuguesa na PUC-Go e UFGo e Representante Internacional da revista Odisseia da Medicina, em Londres. Colaboradora na revista Zelo, escritora e coautora; além de fundadora do projeto Café Cultural.

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